domingo, 12 de julho de 2009

Texto 5 - módulo 3

Conheça o Conhecedor
Seu verdadeiro Eu

O propósito de todas as práticas espirituais consiste em conhecer nosso próprio “eu”. A Bíblia diz: “Ama a teu próximo como a ti mesmo”. Mas se você não conhece seu próprio eu, como poderá amar o “eu” do próximo? Conheça primeiro seu próprio “eu” e logo verá o seu “eu” no outro. Somente assim poderá amá-lo como a si mesmo.

Alguém lhe diz: ame todas as frutas da mesma forma como você ama a maçã. E ainda: veja a maçã em todas as outras frutas. Mas se você não sabe o que é uma maçã, não poderá ver as outras frutas como uma maçã. Da mesma maneira, para amar a todos ou a tudo como o Espírito Uno, você deve realizar sua própria verdade espiritual; devemos realizar DEUS em nós mesmos.

Você já se olhou no espelho? Viu o seu rosto? Suponha que eu quebrasse o espelho; você poderia se ver? Não; mas, por um acaso, perdeu o seu rosto? Não. O que você vê no espelho é somente a “imagem”, não é o original, porque é o rosto quem está se vendo no espelho. O rosto é o sujeito. O sujeito nunca pode se converter em objeto. O sujeito só vê uma imagem de si mesmo como o objeto, mas nunca vê a si mesmo.

Se o espelho está distorcido ou deformado, a imagem que o reflete também estará. Mas por causa disso você correria a um médico e diria: “Doutor, o que está acontecendo com o meu rosto?” O médico lhe diria: “Nada se sucede. Você está bonito (ou bonita).” “Mas eu vi uma imagem horrível...” poderia você contestar-lhe.

Então o médico lhe colocaria diante de outro espelho nítido, sem distorções, em perfeito estado e você diria: “Meu Deus, eu vi uma imagem horrível em meu espelho, mas agora está bonita!”.

Mas, claro, você não faria isso, compreenderia que o problema está no espelho e não em seu rosto. Consertando-se o espelho ou trocando-o por outro, você poderia ver a imagem de seu rosto, sem distorções. Se você busca a sua natureza verdadeira em um espelho distorcido, este refletirá um rosto distorcido. Qual é o espelho, em nosso caso? É a nossa mente. Para vermos nosso verdadeiro eu, temos de ter uma mente limpa, clara e calma.

Algumas pessoas conservam limpo o espelho e compreendem que são “bonitas”. Outras não o limpam bem. Outras o quebram e outras se miram em espelhos deformados.

Não somos diferentes uns dos outros, no que diz respeito ao conhecimento transcendental. É o que chamamos de “espírito” ou “verdadeiro eu”. Quando dizemos “alma”, em geral nos referimos ao reflexo do “eu” sobre a matéria da mente. A alma é a chispa de divindade e a imagem de DEUS, enquanto que o si mesmo “é” Deus. Quando a sua mente está calma, serena, compreende que a alma e Deus são um só, sem distorções, sem nenhum pigmento.

Portanto, o corpo humano também deveria ter serenidade, quer dizer, o estado relaxado ou puro. Um corpo muito saudável e relaxado, com uma mente calma, quieta, permitirá que a luz verdadeira ou a natureza verdadeira do seu interior se expresse sem nenhuma deformação. É algo como uma luz com duas sombras: a da mente e a do corpo. Se forem limpos como o cristal, a luz brilha sem distorções. Em conseqüência, é necessário que estas duas sombras, o corpo e a mente, estejam tão limpos quanto seja possível.

Primeiramente você deve se preocupar com a mente já que o corpo é apenas um instrumento dela. O corpo se expressa de acordo com os desejos das impressões da mente. Em geral, nos identificamos com mente e corpo. Por isso nos damos nomes diferentes e, assim, nos distinguimos uns dos outros. Desejamos definir a nós mesmos: “sou sul americano; sou branco; sou negro; sou rico; sou pobre”. Estas são nossas definições, mas, em espírito, somos iguais. As variações e definições acontecem somente quando nos identificamos com o corpo e a mente.

Por natureza somos tranqüilos, pacíficos. Sem dúvida, por causa de nossa negligência ou do nosso esforço para satisfazer os desejos egoístas ou os sentidos, perturbamos esta tranqüilidade e paz. E quando perturbamos a tranqüilidade, nos sentimos intranquilos. Somos bons originalmente, mas perdemos esta perfeição ao nos definirmos. Desafortunadamente, no momento em que nos definimos – ou limitamos o eu – deixamos de ser bons.

Todas as escrituras, todos os sábios, santos e profetas nos dizem para que deixemos de nos definir. Este é o procedimento para nos elevarmos. Esta é a essência de todo o Yoga e de todas as escrituras. Leia a Bíblia, o Alcorão, o Torá, os Upanishads, o Bhagavad Gita. Purifique-se abandonando estas definições, não se deixe enganar. Estas definições nos dividem. Se você diz: “sou homem” ou “sou mulher”, se identifica com o corpo. Se diz: “sou advogado” ou “sou inteligente”, se identifica com a mente. Cada definição distingue um homem de outro homem, uma mulher de outra mulher, um ser de outro ser.

Por acaso estou dizendo que as pessoas purificadas não têm definições? Suponhamos que perdêssemos todas as definições e que todos fôssemos iguais; então, não poderíamos reconhecer nossos amigos. Todos seríamos iguais, falaríamos e comeríamos da mesma maneira. Não haveria pais, mães, filhos nem filhas. Este não é o significado do verdadeiro aperfeiçoamento.

O Yoga não esquece que a variedade é o tempero da vida. Necessitamos dela para desfrutar a vida. Mas, se a variedade em si vai nos perturbar ou nos dividir, não a queremos. Inclusive, neste caso, poderemos nos desfazer dela? Não, é impossível, é um paradoxo. Não podemos nos desfazer da variedade, ainda que ela nos divida e nos acarrete problemas. O que fazer?

Temos que conservar a variedade e nos elevarmos acima dela, para podermos ver a unidade. Meu mestre, Swami Sivananda, com freqüência usava esta frase: “UNIDADE NA DIVERSIDADE”.
Lembre-se sempre: necessitamos de variedade, mas só podemos desfrutá-la se nos recordarmos sempre da unidade que a sustenta.


SRI SWAMI SATCHIDANANDA
Mestre de Yoga

Nenhum comentário:

Postar um comentário